“A TS foi excessivamente otimista”, diz Filipe Bonaldo Alves, diretor da A&M Infra
09/02/2026
O primeiro leilão de transmissão de 2026, previsto para março, traz a possibilidade de ter sete lotes que foram arrematados em certames anteriores e para os quais a Aneel decretou a caducidade.
O processo mais recente envolve os dois lotes da antiga Sterlite, atualmente TS Transmissions, que decretou sua recuperação extrajudicial em julho do ano passado, com dívidas de R$ 1,4 bilhão. O grupo tem outros ativos de transmissão em operação no país. Os outros cinco são da MEZ Energia.
Para Filipe Bonaldo Alves, diretor da A&M Infra, os processos das duas empresas são distintos, porém fortalecem o setor de transmissão.
“A saída da MEZ foi negociada via TCU e houve uma tentativa de judicialização antes do desfecho. Apesar de ser um grupo capaz, ele percebeu que a diversificação para este setor não trouxe os retornos esperados e preferiu “assumir o prejuízo” e sair do negócio”, disse Alves à Brasil Energia.
Diferente do grupo brasileiro, os empreendedores indianos acumularam uma série de erros. “A TS foi excessivamente otimista e, embora a matriz estrangeira seja robusta, não quis oferecer garantias cruzadas para a operação no Brasil nem aportar mais capital quando o projeto se mostrou mais caro e complexo do que o previsto”, resume Bonaldo.
O consultor aponta um efeito dominó negativo na TS, que começou com a venda dos primeiros ativos construídos no Brasil, usados para cobrir buracos financeiros causados pelo aumento de custos. A empresa teria se desfeito das concessões que tinham as melhores margens financeiras.
Outro erro foi a recusa de aporte de capital. “Quando os custos subiram e os projetos atrasaram, ela se recusou a injetar capital próprio adicional (equity) para reequilibrar as contas”, pontua o especialista.
Por fim, a TS ficou com ativos “tóxicos”, traduzidos em projetos problemáticos, que não tinham execução física, possuíam problemas de licenciamento e cuja estrutura financeira era inviável, sem que a empresa quisesse colocar dinheiro ou assumir o prejuízo para devolvê-los.
Para Bonaldo, a reestruturação extrajudicial da empresa, que herdou os ativos da indiana Sterlite, é vista como improvável, pois os bancos credores preferem que o ativo vá a leilão a aceitar perdas significativas numa renegociação complexa. Ele lembra que o leilão libera os ativos para serem assumidos por quem tem capacidade real de entrega, garantindo a robustez do sistema energético a longo prazo.
“A retomada permite que eles voltem a leilão com condições financeiras mais realistas. Um dos problemas apontados no passado foi o deságio agressivo, com uma taxa de retorno muito baixa, ofertado originalmente, o que inviabilizou a estrutura de capital. No novo leilão, espera-se uma receita anual permitida (RAP) melhor e mais atrativa, viabilizando o investimento”, argumenta o consultor da A&M Infra.
O especialista argumenta que a alternativa de manter a concessão dos dois lotes resultaria inevitavelmente em atraso, processo que pode ser evitado com a relicitação. Mesmo assim, a reorganização das entregas pode resultar na entrega dos empreendimentos provavelmente em 2030.
A decretação de caducidade pela Aneel precisa ser validada pelo MME, que tem discricionariedade para adotar ou não a medida. A agência também negou o pedido de que o processo fosse submetido ao TCU, como aconteceu com a MEZ.
“A caducidade ajuda a remover ‘aventureiros’ e empresas que não possuem a robustez ou a disciplina financeira necessária, fortalecendo a participação de players tradicionais e consolidados que entregam seus projetos”, avalia Bonaldo.
O especialista aposta ainda no aperfeiçoamento da habilitação das concessões pela Aneel, inclusive com mecanismos de acompanhamento intermediário e maior exigência das garantias financeiras. Para ele, a caducidade ou intervenção atualmente ocorre muito próximo ao prazo final de entrega, quando já é evidente que a obra não ficará pronta e o impacto no sistema é inevitável. Bonaldo sugere métricas intermediárias e rigorosas ao longo do contrato.
“Se a empresa não cumprir marcos específicos de licenciamento, estruturação financeira ou início de obra em prazos pré-determinados, a Aneel poderia intervir precocemente, evitando que o ativo fique parado por anos”, detalha.
A exigência de garantias robustas é outra sugestão. “O caso da TS demonstrou uma falha na estrutura de responsabilização financeira. O grupo matriz era robusto internacionalmente, mas a operação brasileira foi estruturada de forma isolada, sem garantias cruzadas da matriz”, finaliza.
A reportagem procurou a TS Transmissions, que preferiu não se manifestar.
Fonte: Brasil Energia



