Roadmap pelo fim dos combustíveis fósseis terá apoio da AIE

Presidência da COP30 inicia périplo pela Europa para acertar apoio de IEA, Opep, Irena e FAO para mapas do caminho
09/02/2026

A presidência brasileira da COP30 está trabalhando simultaneamente em três mapas do caminho – do afastamento dos combustíveis fósseis, do fim do desmatamento global até 2030 e no aprimoramento do roteiro para que o mundo chegue a US$ 1,3 trilhão, anuais, em 2035. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, inicia esta semana uma viagem à Europa, com escalas na Turquia, Itália e França, para dar solidez aos três “roadmaps”.

A estrutura dos três roadmaps está concluída. Incluem uma entidade internacional, que será a fonte de dados mais relevantes e recentes, um coordenador e uma instituição brasileira que funcionará como espécie de secretariado para a presidência da COP30.

A presidência brasileira da COP30 segue em 2026 até novembro, quando inicia a COP31, em Antália, na Turquia, com a Austrália liderando as negociações técnicas e diplomáticas. Dois dos mapas do caminho, o dos combustíveis fósseis e do desmatamento, foram autoatribuídos por Corrêa do Lago ao final da COP30, quando a menção ao roadmap foi excluída de todos os textos finais da conferência por falta de consenso -pedido de mais de 80 países, embora outro tanto fosse a favor.

O terceiro mapa do caminho, das finanças para a transição (Roadmap Baku-Belém para US$ 1,3 trilhão), é um mandato da COP28, em Baku, para as presidências brasileira e azeri.

No roadmap para eliminar a dependência global dos combustíveis fósseis, a fonte de dados será a Agência Internacional de Energia, (IEA), além da Opep e da Agência Internacional de Renováveis (Irena). No Brasil, a entidade será a consultoria Catavento. Corrêa do Lago vai a Paris falar com o diretor-executivo da IEA, Fatih Birol.

“Existe uma enorme ansiedade sobre este roadmap”, reconhece o diplomata. O tema ganhou força em Belém. Especialistas do Observatório do Clima, rede com mais de 160 organizações com foco em clima, fizeram recomendações para o mapa do caminho. Na semana passada, um grupo de 114 organizações da sociedade civil do Brasil e do mundo publicou carta-aberta pedindo à presidência da COP30 que “o roteiro para a transição seja um processo político real e inclusivo” e não mais “um documento destinado a acumular poeira”.

“Temos ouvido que o roadmap de fósseis, entre outras coisas, tem que trabalhar muito na dimensão da demanda, uma vez que esta discussão está concentrada sempre na oferta”, adianta o embaixador. O documento deve olhar para riscos sistêmicos econômicos, financeiros, políticos e sociais.

No roadmap para eliminar o desmatamento global até 2030, a instituição-chave será a FAO, a organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. “A FAO cuida de florestas sob várias dimensões. Mas, naturalmente vamos ouvir a Convenção de Biodiversidade, o Pnuma e outras instituições”. No Brasil, será o CPI/PUC-Rio, sob comando do economista Juliano Assunção.

O terceiro caso é diferente. Na COP29, em Baku, em 2024, ficou acertado que as presidências brasileira e do Azerbaijão fariam um relatório sobre como o mundo mobilizaria US$ 1,3 trilhão, anuais, em 2035 para enfrentar a crise do clima. O relatório foi entregue na COP 30, em Belém.

O texto final da COP30 é uma evolução do texto de Baku que pedia um esforço conjunto para que os governos trabalhassem juntos na iniciativa. Em Belém, a linguagem do acordo do Mutirão Global é muito mais forte: decide avançar urgentemente com ações que permitam mais financiamento aos países em desenvolvimento para clima, “provenientes de  todas as fontes, públicas e privadas, para mobilizar ao menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035”.

Uma das ações, previstas para outubro, é um relatório feito por um grupo de especialistas para refinar dados e desenvolver caminhos concretos de finanças para que se chegue ao US$ 1,3 trilhão. Outra frente é solicitar a agências da ONU que compartilhem serviços para reduzir a fragmentação de esforços. Durante esta fase inicial, espera-se que as instituições filantrópicas aumentem seu financiamento para ajudar países a criarem plataformas de investimentos e demandas prioritárias em clima. A indústria de seguros, por seu turno, pode trabalhar com os países mais vulneráveis para reduzir as lacunas financeiras no caso de desastres climáticos.

A entidade que deve ajudar com dados e informações recentes ao aprimoramento do relatório sobre US$ 1,3 tri deve ser o IHLEG, sigla para o grupo de experts independentes de alto nível comandado pelo economista britânico Nicholas Stern, além dos economistas do Conselho de Finanças, Economia e Clima, ligado ao presidente da COP30, e coordenado por José Alexandre Scheinkman. Os coordenadores dos roadmaps serão diplomatas da presidência da COP30.

Esta semana, Corrêa do Lago vai a Istambul, a convite do governo turco, para uma reunião com australianos, e presidentes das COPs anteriores, de Baku e Dubai. Vai a Roma conversar com o diretor-geral da FAO, o chinês Qu Dongyu, sobre o apoio técnico da entidade.

Fonte: Valor Econômico

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