Expectativa da maioria das 123 casas consultadas é que o BC não altere os juros básicos ao menos até o fim de 2024
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central confirmou as expectativas da maioria dos gestores e economistas do mercado ao manter a taxa Selic em 15% pela quinta reunião consecutiva. O comunicado da decisão, no entanto, surpreendeu ao indicar de forma clara que o ciclo de corte de juros deve se iniciar na próxima reunião do colegiado, em março.
“O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, diz o comunicado. Segundo o Copom, uma “calibração” do nível de aperto monetário será adequada se o contexto de inflação mais baixa e efeitos mais evidentes dos juros altos na economia se mantiver.
Embora a escolha por indicar o próximo passo da Selic possa ser lida como uma mudança para uma postura menos conservadora do Copom, o colegiado voltou a apontar que o ambiente atual é marcado por elevada incerteza e, por isso, exige cautela na condução da política monetária. Nesse sentido, o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes da Selic devem ser considerados com “serenidade”, de acordo com o comitê.
Para Luís Cezario, economista-chefe da Asset 1, a decisão de dar uma orientação futura (“guidance”, no jargão do mercado) foi adequada, dado o nível bastante elevado da Selic atualmente. Por esse mesmo ponto, ele acredita que o Copom irá iniciar os cortes com uma redução de 0,5 ponto percentual, levando a Selic a 14,50% na reunião de março.
“O Copom tem evidência suficiente de que a política monetária está fazendo efeito. Diante disso, parece ser recomendável que comece a ajustá-la”, diz ele, que ressalta a mensagem de que não se trata, neste momento, de estimular a economia, mas sim de apenas reduzir o nível do aperto monetário, dado o arrefecimento da inflação.
Ainda assim, começar com um corte de apenas 0,25 ponto percentual praticamente não mudaria o nível de restrição monetária dado o patamar atual dos juros, acrescenta Cezario. Para ele, um corte de 0,5 ponto a partir de uma Selic de 15% pode ser considerado “cauteloso”.
Nelson Rocha Augusto, economista chefe do BRP, vai na mesma linha e acredita que o comunicado indica espaço para começar o ciclo com um corte de 0,5 ponto. Para ele, já era possível reduzir a Selic nesta semana, mas o BC optou por ter mais cautela. Ele critica, contudo, a menção ao mercado de trabalho como um fator de preocupação do Copom.
“O mercado de trabalho não é uma variável de ajuste de conjuntura, mas de estrutura. É caro contratar e demitir no Brasil, então, como há uma perspectiva econômica positiva, o mercado de trabalho não é a ferramenta principal de ajuste das empresas”, explica.
Rocha lembra, ainda, que o câmbio está em níveis mais apreciados do que o utilizado pela autoridade em seus modelos. Segundo o comunicado, o câmbio de referência era de R$ 5,35 por dólar. Nesta quarta, o dólar à vista encerrou o pregão cotado a R$ 5,20. “Esse é outro fator que explica por que o BC pode começar o corte no ritmo de 0,50 ponto, caso o câmbio continue nesse patamar ou aprecie mais”, diz o economista. “Mais do que isso, um ritmo de 0,75 ponto percentual, já acho improvável porque você passa uma mensagem errada. Não dá para ir em um ritmo muito rápido porque você demonstra que na verdade você deveria ter ido mais rápido. Isso gera insegurança. Gera marola e problema de expectativa.”
O economista Leonardo Costa, do ASA, também vê na apreciação recente do real um fator que pode levar o BC a iniciar o ciclo com uma redução maior da Selic, ainda que o comunicado tenha sido cauteloso e indique, a princípio, um corte de apenas 0,25 ponto percentual.
“O texto foi redigido com cautela, na direção de um corte de 0,25 ponto percentual em março, que é o nosso cenário-base. Mas, como o BC coloca que deve ficar dependente de dados, e o câmbio já está em um nível mais apreciado do que a referência dessa reunião, cria-se uma janela para um corte de 0,50 ponto percentual.”
Para Costa, quando o BC for rodar seu modelo em março, se o câmbio ainda estiver no patamar atual, de R$ 5,20, a projeção da inflação tende a ficar na meta ou muito próxima dela. “Além disso, tivemos o IPCA-15 mais baixo, com o qualitativo de serviços também melhor. Então, se tivermos mais dados de atividade que ajudem, abre-se a porta para um corte de 0,50.”
Ainda que o BC tenha mantido a projeção de inflação para o terceiro trimestre de 2027 em 3,2%, a cautela nesse ponto pode ser neutralizada pela postura da autoridade em dizer que está dependente de dados. “O próprio BC, ao se colocar como dependente de dados, em um cenário que avança com bastante velocidade, dá uma indicação do que deve fazer”, diz.
Na contramão, o economista-chefe do Sicredi, André Nunes de Nunes, entende que o comunicado indicou uma postura ainda conservadora, apesar do “guidance”, o que sugere um corte de 0,25 ponto na próxima reunião. Para ele, entender que o comunicado é “dovish” (inclinado a juros mais baixos) só por ter sinalizado um corte em março é “um pouco simplista”.
“Acho que o comunicado foi mais explícito do que se esperava, esperávamos que não deixasse tão claro o próximo passo”, diz. No entanto, a própria comunicação do BC indicou maior cautela com o uso de termos como “serenidade” ao descrever o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes. Além disso, a ausência de mudanças relevantes na descrição do cenário econômico pelo Copom também sugere cortes contidos da Selic num primeiro momento, avalia.
“Por que dar o ‘guidance’ se não vê tanta mudança [no cenário econômico]? Porque o corte servirá muito mais ajustar o nível de aperto monetário, ainda existe um caminho a ser percorrido”, diz Nunes, que espera uma Selic de 12,50% no fim de 2026. Ele considera esse ponto importante pois, na sua visão, o mercado deve ficar mais otimista com o ciclo de cortes e precificar uma Selic mais baixa para o fim do ano. “Já eu leio diferente, mas acredito que o mercado vai testar [o BC].”
Cezario, da Asset 1, tem um cenário mais otimista e vê a Selic caindo a 12% este ano, com chances de ficar abaixo disso caso o quadro global de dólar enfraquecido se estenda. “Três pontos percentuais de corte é o que está no nosso cenário-base, mas o ambiente internacional como está se desenhando, de depreciação do dólar, parece indicar uma probabilidade crescente de um corte ainda maior.”
Já Augusto, do BRP, acredita que o ciclo de flexibilização monetária pode se estender até 2027. Para ele, isso vai depender mais do resultado das eleições e de como os desafios fiscais do país serão encarados pelo novo governo. “Se tivermos uma sinalização de que vai ter algo nesse sentido, a Selic pode continuar caindo no ano que vem até atingir o patamar de 10% em meados de 2027”, afirma. Para o fim de 2026, o BRP projeta a taxa básica de juros a 11,50%.
Fonte: Valor Econômico



