‘Petrolíferas vão querer desenvolver e vender o óleo diretamente’

Carlos Pascual, da S&P Global, diz que elevar produção de petróleo é viável em 18 meses com infraestrutura existente no país

As petroleiras americanas vão demonstrar interesse em voltar à Venezuela depois de o governo de Donald Trump ter atacado o país e destituído o agora ex-presidente e ditador Nicolás Maduro, preso em Nova York. Mas o retorno dessas empresas deve se dar em fases. Algumas das companhias, ainda ativas na região, como a Chevron, poderão agir mais rápido. Enquanto outras, ir mais devagar. “Não acho que nenhum grande produtor vá aparecer neste estágio dizendo ‘não’ [ao presidente Trump] porque há um recurso significativo ali [na Venezuela]”, diz Carlos Pascual, chefe de relações internacionais e vice-presidente da S&P Global.

Em entrevista ao Valor, Pascual afirmou que aumentar a produção de petróleo da Venezuela de 900 mil barris por dia para cerca de 1,5 milhão por dia pode ser feito com a infraestrutura existente em um prazo de cerca de 18 meses. O desafio maior é elevar a produção para além desse volume, o que vai exigir investimentos bilionários.

Pascual, que foi embaixador dos Estados Unidos no México e na Ucrânia, prefere não arriscar quanto seria necessário: “Vi estimativas que variam muito, de US$ 65 bilhões a US$ 180 bilhões [de investimentos em período de até dez anos]. Não tenho certeza de como estimar isso por enquanto. Mas a escala da necessidade de investimento é significativa o suficiente para que qualquer investidor sério queira ter muita certeza e segurança de que esse investimento será respeitado e protegido.”

Em 2000, a Venezuela era o maior produtor de petróleo da região, com produção média superior a 3 milhões de barris por dia. Em 2025, a Venezuela produziu em média 826 mil barris por dia, conforme dados da S&P, desconsiderando líquidos mais leves utilizados na mistura do óleo bruto. A estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) foi usada com fins políticos e houve nacionalização de empresas petrolíferas, o que derrubou os investimentos no setor.

Com o recrudescimento do regime autoritário na Venezuela, vieram também as sanções impostas pelos Estados Unidos. Pascual lembra que processos para compensar as empresas americanas pela nacionalização dos ativos ainda estão em curso. Agora, para voltar, as petroleiras vão levar em conta uma série de pontos, como a segurança jurídica, as perspectivas de estabilidade interna e o futuro das sanções americanas: “A maioria das empresas vai negociar o direito de comercializar o petróleo diretamente.” A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:

Valor: O presidente Trump disse que as petroleiras americanas vão operar na Venezuela e refazer a infraestrutura da indústria de petróleo no país. O senhor acredita que haverá interesse das empresas americanas em voltar a operar na Venezuela? E em quais condições?

Carlos Pascual: É importante esclarecer, primeiro, se esse petróleo era americano ou não. Nenhum país interpretaria os direitos de exploração de petróleo dessa forma. Cada país tem seus próprios direitos de exploração de petróleo. Nos Estados Unidos, é petróleo americano. O petróleo pertence aos Estados Unidos. A Total é uma investidora, mas não é dona desse petróleo. E é por isso que as empresas pagam impostos e royalties. Aliás, a maioria das empresas ainda está envolvida em algum tipo de acordo de arbitragem para poder lidar com o acordo da expropriação [da Venezuela] de 2007. Se você perguntasse a qualquer uma das grandes petrolíferas, provavelmente não ouviria que aquele petróleo era delas. Elas [as petroleiras] reconheceriam que é petróleo venezuelano e que a Venezuela tem o direito legal de nacionalizá-lo. Mas se isso acontecer será necessário haver um processo para compensar as empresas pelos investimentos e esse processo ainda está em andamento.

Valor: Como o senhor acredita que deva ocorrer o retorno das petroleiras americanas e o desenvolvimento da produção dos campos?

Pascual: Em relação ao desenvolvimento do petróleo, há alguns pontos básicos sobre os quais, acredito, a maioria das empresas irá analisar. É provável que vejamos ações por parte das empresas que já atuam de forma significativa na região. Chevron e Repsol seriam as mais prováveis inicialmente. O primeiro critério será a situação de segurança e as perspectivas de estabilidade interna. A segunda questão será o que acontecerá com as sanções dos EUA [à Venezuela]. As sanções foram suspensas? E as empresas podem entrar e operar? A terceira questão é qual o grau de estabilidade política no país? Como será o acordo para desenvolver esses recursos? E uma das coisas que a maioria das empresas vai negociar é o direito de comercializar o petróleo diretamente.

Valor: No lugar da PDVSA?

Pascual: As companhias vão desenvolver esse petróleo e vão querer comercializá-lo elas mesmas. Esse será um fator crítico. Em vez de transferir a produção para a PDVSA e deixar que a estatal venezuelana a comercialize e depois transfira os recursos para as empresas. As empresas que estiveram lá mapearam extensivamente os campos em que atuavam. Então isso não é algo que vai levar muito tempo. Há uma percepção de que, em diferentes graus, a produção poderá aumentar. Passar de 900 mil barris por dia para 1,5 milhão de barris por dia é algo que, nas condições que descrevi, é possível realizar em cerca de 18 meses.

Valor: Como deve funcionar o modelo de operação para as petroleiras na Venezuela? As petroleiras americanas seriam remuneradas pelos serviços prestados? Ou o senhor acredita que pode haver leilões de concessão de áreas?

Pascual: Minha impressão é que esse modelo de longo prazo para o desenvolvimento vai exigir alguma negociação e discussão interna [na Venezuela]. Haverá diferentes perspectivas sobre como potencialmente desenvolver esses recursos petrolíferos por parte da oposição venezuelana, dependendo de como ocorrer o processo de transição e qual for a  composição do parlamento. Acho que os pontos que eu enfatizaria são que, para um desenvolvimento eficaz a longo prazo, será necessário um investimento massivo em infraestrutura. Sair de uma produção de 900 mil barris por dia para cerca de 1,5 milhão de barris por dia pode ser feito com a infraestrutura que existe, mas com a preocupação óbvia de revisar os dutos, as válvulas e garantir que não haja acidentes.

Valor: E para além disso?

Pascual: Para ultrapassar esse nível de produção, vai precisar de um nível muito significativo de ajuste. Vi estimativas que variam muito, de US$ 65 bilhões a US$ 180 bilhões [de investimentos ao longo de um período de cinco a dez anos]. Todas de diferentes players do setor. Eu não tenho certeza de como estimar exatamente isso por enquanto. Mas a escala da necessidade de investimento é significativa o suficiente para que qualquer investidor sério queira ter muita certeza e segurança de que esse investimento será respeitado e protegido. Há receios se haverá algum tipo de nacionalização ou se, depois de começar, as condições possam mudar, com alterações nos royalties ou na estrutura tributária. Há ainda questões sobre segurança e sobre a natureza do contrato, mas também sobre que tipo de apoio político existe para o desenvolvimento [do petróleo] e se isso fica claro na legislação. Não apenas em termos de compromissos políticos, mas que haja legislação de apoio para dar confiança às empresas para avançar com a escala de investimento necessária.

Valor: Existem outros pontos a serem considerados?

Pascual: Algumas das empresas com as quais conversei citaram a importância de uma revisão ambiental aprofundada. Esse movimento é necessário para confirmar que haverá desenvolvimento no futuro e para prevenir acidentes significativos. Todas [as empresas] são muito sensíveis a isso. É um dos fatores-chave para ter eficiência.

Valor: Mas o senhor acredita que, mesmo em uma conjuntura de insegurança jurídica, seja possível desenvolver a indústria de petróleo na Venezuela?

Pascual: Essa é a razão de eu afirmar que vai haver uma divisão. Vai haver um primeiro momento, de um aumento de produção até alcançar 1,5 milhão de barris por dia, e outro momento depois disso.  Os aumentos iniciais devem vir de empresas que já estão ativas, sendo a Chevron a mais óbvia, e talvez elas estejam em posição mais rápida para reagir quando sentirem que as condições são adequadas. Mas para empresas que vão voltar depois de muito tempo e que não estão envolvidas com a Venezuela, levará mais tempo para desenvolverem a confiança de que há condições para justificar os bilhões de dólares em investimentos.

Valor: E qual é o papel dos preços do petróleo nessa equação?

Pascual: Esse é outro ponto que é preciso levar em conta: o preço vigente do petróleo, que não está alto no momento. Esse não é um período que esteja levando as empresas a fazer grandes investimentos de capital. Vai haver outros projetos concorrentes ao redor do mundo. O custo de produção na Venezuela tem sido alto. Isso vai ditar o ritmo desse desenvolvimento [da produção].

Valor: As petroleiras americanas podem dizer ‘não’ a Trump?

Pascual: Não acho que as empresas vão colocar dessa forma. Acredito que elas vão demonstrar um interesse significativo e algumas podem agir mais rápido e outras, devagar. Não acho que nenhum grande produtor vá aparecer neste estágio dizendo ‘não’ porque há um recurso significativo ali [na Venezuela].

Valor: Nesta segunda-feira (5), as ações das petroleiras americanas subiram, assim como o preço do petróleo. Como o senhor vê os efeitos da situação na Venezuela sobre esses ativos a médio e longo prazos?

Pascual: Uma das ironias quando há um colapso econômico massivo em um país é que não é necessária uma grande atividade econômica para demonstrar melhoria. Dado o grau em que a indústria foi parada, essa produção de petróleo foi tão limitada que, em alguns anos, mesmo que a Venezuela volte a produzir 1,5 milhão de barris por dia, isso terá um impacto imediato no PIB [Produto Interno Bruto] e nos empregos, com algum tipo de melhora na economia. Eu reforço a importância da segurança. Neste momento, a segurança vai ser mantida de alguma forma pelas instituições existentes. Os Estados Unidos vão dar o comando de quais ações devem ser tomadas e as instituições venezuelanas vão obedecer. Há um risco porque [a situação] não está diretamente sob controle dos Estados Unidos e vai depender de muitos atores e instituições diferentes. Também é preciso lembrar que a Venezuela tem uma longa história de envolvimento da inteligência cubana. Voltar para uma Cuba falida provavelmente não é do interesse deles.

Valor: Quais são os reflexos sobre a China e a Rússia após a ação militar na Venezuela?

Pascual: Há muitos sentimentos mistos. Por um lado, eles [chineses e russos] foram muito rápidos em condenar as ações dos Estados Unidos. Isso não é surpresa. Eles podem estar analisando as ações americanas e a nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, que exige um renascimento da Doutrina Monroe [em que prevalecem os interesses americanos sobre a área de influência na região]. Não me surpreenderia se, em algum momento, Rússia e China determinassem uma resposta recíproca sobre essa reivindicação americana de proeminência sobre o Ocidente.

Valor: O senhor vê impactos significativos para a relação entre oferta e demanda de petróleo no mundo depois do que aconteceu?

Pascual: Não há impacto significativo na oferta e demanda. Modelamos e analisamos a situação. Há um excesso de oferta [de petróleo] significativo no mercado. Os estoques estão se acumulando. Não vemos um impacto relevante

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/01/06/petroliferas-vao-querer-desenvolver-e-vender-o-oleo-diretamente.ghtml

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