Novo presidente do Conselho Federal de Contabilidade assume com foco em redução de assimetrias e valorização profissional
O novo presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), Joaquim Bezerra, tomou posse do cargo nesta segunda-feira (5) com a agenda de valorizar a profissão e diminuir as diferenças normativas entre diferentes setores. Em entrevista exclusiva ao Valor, diz que a contabilidade deixou de ser apenas o registro do passado, para ser também do futuro, e destaca que a reforma tributária será o principal desafio técnico e institucional do biênio.
O CFC é o órgão máximo de regulação, normatização e fiscalização da profissão contábil no país. O presidente do órgão é escolhido por eleição interna, entre os próprios membros do colegiado. O mandato tem duração de dois anos e pode ser renovado.
Contador e consultor de negócios com mais de 25 anos de experiência no mercado, Bezerra é conselheiro no CFC desde 2010, onde exerceu os cargos de vice-presidente de Política Institucional, Operacional e de Governança. Ele substitui Aécio Prado Dantas Júnior, que esteve à frente do conselho de janeiro de 2024 a dezembro de 2025.
Nascido no Piauí, Bezerra tem sua trajetória marcada pela atuação no movimento estudantil, passando por pautas como governança pública, contabilidade eleitoral e fortalecimento institucional da profissão. O novo presidente também é acadêmico da Academia Brasileira de Ciências Contábeis e das Academias regionais do Piauí e de São Paulo.
Ao assumir o comando da entidade no ano em que o CFC completa 80 anos, Bezerra diz que a reforma tributária será maior desafio. “A reforma não pode ser implementada por decreto, será implementada pela contabilidade”, afirma. Segundo ele, são os profissionais da área que irão traduzir os novos tributos sobre o consumo, o IBS e CBS, em impactos concretos sobre preços, margens, caixa e decisões de investimento das empresas.
O presidente do CFC ressalta que o conselho tem atuado de forma intensa no diálogo com o Congresso Nacional, o Ministério da Fazenda e a Receita Federal para corrigir distorções que afetam a escrituração contábil e fiscal.
Ele cita como exemplo a discussão sobre prazos de apuração e encerramento de balanços corporativos de companhias, que motivou a emissão de notas técnicas da entidade. “Quando a lei cria assimetrias com as normas contábeis, o papel do CFC é buscar interpretação sólida que dê segurança jurídica ao profissional e ao contribuinte”, diz.
Bezerra avalia que as grandes empresas estão mais preparadas para a transição e que o maior risco está nas micro e pequenas empresas, que representam mais de 90% do tecido empresarial brasileiro.
“O nosso maior desafio é não deixar o pequeno empresário para trás. A complexidade da transição existe, mas o contador será o estrategista capaz de transformar essa complexidade em viabilidade econômica”, afirma. Para isso, o CFC pretende intensificar programas de capacitação prática e comunicação clara voltados a esse público.
Na visão do contador, a reforma tributária gera custos no curto prazo, mas o custo maior seria não avançar. No longo prazo, avalia, a simplificação tende a melhorar a competitividade do país e reduzir a insegurança jurídica. “O custo verdadeiro é não ter a reforma implementada, é manter um sistema caótico que penaliza o ambiente de negócios”, afirma.
Bezerra defende ainda a redução das assimetrias normativas entre diferentes setores regulados e maior alinhamento aos padrões internacionais, como os da Fundação IFRS. Ele explica que as diferenças entre os setores da economia, como o agronegócio, a indústria, o mercado financeiro e o saneamento, exigem normas contábeis capazes de considerar a natureza específica de cada ativo, sem abrir mão de uma base comum.
Segundo ele, esse alinhamento é construído por meio do diálogo com o mercado e os reguladores, no âmbito do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), mas deve ir além do campo técnico. “As normas precisam estar claras para o mercado, para dar segurança ao investidor e garantir segurança jurídica no ambiente de negócios.”
Para ele, somente com uma linguagem contábil uniforme será possível ampliar a comparabilidade, atrair investimentos e reforçar a confiança do mercado. “A contabilidade é a linguagem da confiança, e confiança é o ativo mais valioso num ambiente econômico em transição”, afirma.
Outro eixo relevante da gestão será a consolidação dos relatórios de sustentabilidade alinhados às normas do International Sustainability Standards Board (ISSB). A mandatoriedade para as companhias abertas brasileiras foi determinada pelo regulador do mercado de capitais local, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e passa a valer a partir do exercício social de 2026.
Bezerra afirma que a adoção das normas S1 e S2 representa um dos maiores desafios técnicos da atualidade, mas também uma janela de oportunidades para a profissão. “Não se trata de um acessório reputacional ou de marketing verde. As informações de sustentabilidade passam a influenciar diretamente decisões econômicas, ‘valuation’ e acesso a capital, e isso exige padrão, comparabilidade e aplicabilidade real”, diz.
Para dar suporte a esse novo cenário, o CFC pretende ampliar de forma significativa as capacitações oferecidas aos profissionais. O novo presidente do CFC resume o papel que pretende imprimir à gestão: “nós saímos de uma contabilidade vista como burocracia e entramos definitivamente numa contabilidade estratégica.”