03/08/2026
A potência dos projetos cadastrados para o primeiro leilão de baterias do Brasil alcançou 296,8 GW (gigawatts), segundo informou a EPE (Empresa de Pesquisa Energética). O volume ultrapassa toda a capacidade instalada do SIN (Sistema Interligado Nacional), de 256,4 GW, conforme dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Fontes relataram à Agência iNFRA que o montante ficou acima das expectativas de agentes e do governo.
Na avaliação do diretor de Novos Negócios da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), Marcello Cabral, o número de cadastramentos surpreendeu, mas não deve ser confundido com projetos maduros. “É uma revelação de confiança do mercado na tecnologia e no potencial que o Brasil tem, e isso abre espaço para uma forte competição”, classificou.
Para Caio Alves, head de Energia do escritório Rolim Goulart Cardoso, o volume chama a atenção. Ele compara os dados divulgados para o primeiro leilão de baterias do Brasil com aqueles disponíveis de um mercado mais maduro na tecnologia, a China. “A China Energy Storage Alliance tem 800 agentes efetivos, só pra se ter um comparativo; o acumulado de baterias é de cerca de 144,7 GW. Ou seja, o número de cadastrados na EPE é o dobro do que a China possui em operação”, destaca.
“Os mais de seis mil projetos cadastrados revelam então que há interesse comercial latente, que a indústria estava ansiosa para esse mercado e que talvez tenhamos um dos leilões brasileiros mais concorridos”, disse, ressaltando que é preciso esperar a análise técnica da EPE para se ter um número mais concreto.
Habilitação
A EPE ressaltou que os projetos cadastrados ainda passarão por análise e habilitação técnica, seguindo os critérios estabelecidos para o certame. Somente após essa etapa será possível dizer o volume apto a participar do leilão. A tendência é que o volume seja reduzido, uma vez que para o cadastramento ainda não foram exigidas licença ambiental e certificação completa do projeto. Diante disso, analistas apontam que o modelo permite aos agentes fazerem diferentes hipóteses de projetos em locais distintos, inclusive para verificar a margem de escoamento.
João Mello, CEO da Thymos Energia, afirma que o número é alto, mas deve ser tratado apenas como o interesse no certame. Ele disse que, diante da modelagem, é normal que agentes tenham se inscrito nos dois leilões – de conteúdo local e sem. Segundo ele, o volume ainda é distante da realidade “porque a barreira da habilitação é baixa, uma vez que a única exigência era ter o terreno para o projeto”.
O advogado Henrique Reis, sócio do escritório Demarest, não se mostrou surpreso com o cadastramento recorde. Para ele, o volume elevado se deve a regras mais flexíveis nessa fase do que nos demais leilões do setor elétrico, o que reduz a barreira de entrada e estimula o cadastramento amplo. “Vale notar que, com a possibilidade de bonificação locacional de 10% no lance, identifica-se um grande volume de projetos em certas regiões, em especial no Nordeste”, complementa. Os projetos localizados em áreas pré-definidas na portaria do MME (Ministério de Minas e Energia) terão o “preço de lance” multiplicado por 0,9, garantindo melhor competitividade no certame.
Para Jairo Terra, head de Assuntos Regulatórios da consultoria PSR, são dois os motivos principais para o número surpreendente: a conjuntura econômica global e o desenho do leilão. Na visão do especialista, esse é um leilão considerado de baixíssimo risco, que não está dependendo de um mercado muito volátil, o que atrai tanto investidores tradicionais do Brasil quanto players internacionais – diante de uma “instabilidade grande” nos Estados Unidos, por exemplo. “Os players internacionais estão com apetite”, disse.
Já o desenho do leilão fez com que um mesmo agente tenha apresentado diversas propostas com potências diferentes. “Muitos projetos estão quadruplicados, então vai ter sim uma redução drástica quando tiver o aporte de garantias”, destacou. Isso porque a margem de escoamento disponível para cada região só será divulgada em meados de setembro, e projetos com potência acima da disponibilidade serão naturalmente cortados, explicou. “Se eu entro com um projeto de 100 [megawatts] e a margem onde eu pretendo me conectar é de 70 [megawatts], eu estou fora do leilão. Isso incentivou o cadastro de projetos de 50, 60 e 70 [megawatts], para garantir que eu não seja excluído do leilão”.
Confiança do mercado
De toda forma, o mercado enxerga os dados como um sinal positivo. O diretor-executivo da Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia), Fabio Lima, afirmou que o dado demonstra forte apetite e confiança dos investidores, além de evidenciar que o país já conta com uma cadeia preparada para atender à expansão dessa tecnologia.
“É um resultado que reforça a urgência e a importância da realização do primeiro leilão ainda neste ano, garantindo previsibilidade regulatória, segurança para os investimentos e um passo decisivo para a modernização da matriz elétrica brasileira”, disse Lima.
De acordo com o diretor da Absae, esse interesse do mercado contrasta com a insegurança jurídica decorrente da regra quanto ao custeio da reserva de capacidade por baterias, que a entidade classifica como “excepcional e anti-isonômica”. A norma, que determina que o encargo das baterias deverá ser pago exclusivamente pelos geradores, está pendente de regulação. Segundo ele, a revogação da exigência legal pelo Legislativo “se torna ainda mais urgente”.
A Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica) também destacou o amadurecimento deste mercado no país e defendeu uma análise criteriosa do perfil dos empreendimentos cadastrados, ao longo da etapa de habilitação técnica. A entidade também se posicionou a favor de que os leilões de armazenamento sejam realizados de forma periódica, com calendário anual após 2026.
Já Marcello Cabral, da Abeeólica, disse que o número de cadastros mostra o potencial de inaugurar uma nova indústria no Brasil. A próxima etapa, ele destaca, será selecionar os projetos realmente viáveis. “A preocupação agora é garantir uma habilitação rigorosa, limitar projetos meramente especulativos, assegurar capacidade real de conexão e evitar que um número tão grande de inscrições produza uma falsa percepção de oferta efetiva”, disse.
O leilão está previsto para os dias 2 e 4 de dezembro deste ano, sendo dividido em dois certames: um destinado a empreendimentos com uso de baterias com fabricação nacional, e outro mais abrangente, que permite sistemas 100% importados.
Fonte: Agência Infra




